Há um(a) Sêrena que chegou às ilhas.
O começo do disco, com o “canto da Sêrena”, faz-nos logo sentir que o caminho será: deixarmo-nos levar por sons que bailam na suspensão de um mundo (quase) parado.
Mas se há (em)bailar, flutuante por vezes – mas sempre irrequieto - também há a presença marcada dos nossos ritmos tradicionais. Sigo então audição, …num tipo de inkietason
Num fundo sonoro, almofadado por músicos que nos habituaram à palavra “diferença” — que vão desde o autor Sérgio Figueira à geração-Lisboa de Renato Chantre, passando pelos nossos guardiões da música das ilhas: Hernani, Micau e Voginha, a que se junta o erudito Stetsenko…Sêrena é contada e cantada, num exaltar da figura feminina com mil cores: mulher…ilha…mulher-ilha…mãe…mulhe- míto…enfim – a Sêrena.
Há a voz de Carla Lima, que aparece num tipo de “novidade” que me surpreende pela sua especificidade, fazendo ao de leve lembrar um “coraçon leve” pintado há umas décadas. A percussão, que se enamora pela “bateria”, parece tocar as marcas necessárias… e quando necessário. O dedilhar dos violões é pura música para nos deleitarmos… há misturas de violino e violão que sabem a música-serena…e há ainda o “assobio”…
Neste disco, Sérgio trabalha …serenamente, a música popular cabo-verdiana, de forma própria e apropriada, através das suas composições que, coerentemente, convivem com sonoridades outras — como os temperos da música improvisada, das músicas do mundo e, obviamente, do universo erudito. Sim, enraizado e aberto, com uma musicalidade que honra os ritmos tradicionais, mas dialoga com outras linguagens. Sim, da improvisação ao universo erudito, em afirmação de identidade, que tanto precisamos realçar na nossa produção e maneira de estar na música cabo-verdiana!
Há um #CaboVerde não só presente nas sonoridades tradicionais, mas também no constante uso dos nossos elementos-ilhéu — sobretudo o mar, que ora nos balança e nina, ora se mistura com o doce e profundo olhar de uma mulher.—bem presente na poesia do disco, que vão de poemas de amor a storias kontadu de quem não sabia o que era o amor…
É satisfação absoluta ouvir a afirmação de sonoridades tão nossas, porém abertas ao mundo — sobretudo quando esse mundo faz parte de pedaços de sonoridades es(colhidas) pelo compositor e interprete, Sérgio Figueira.
Num momento em que nos instalamos, em definitivo, num “mesmismo” musical arrepiante, onde talvez a classe musical precise de assumir mais riscos ; numa sociedade onde, cada vez mais, quem escolhe os palcos quer o mais fácil; num país onde a plateia aplaude cada vez mais depressa; onde as avaliações de musicas e músicos é cada vez mais baseada nas opiniões ocas de quem se vai tornando herói através da informação feito-facilitada — este(a) Sêrena chega-nos em ondas feitas de mar e alma, lembrando que a nossa música é bela. Que o nosso #tradicional abraça o mundo e dele se alimenta…
O disco é composto por temas de Sergio e a capa traz a imagem-pintura de Luisa Quiroz que nos habituou a seres míticos bem presentes na sua pintura, como que pintando o sonoro do filho … no seu trabalho de estreia . Relebro que os discos anteriores de Sérgio Figueira foram sobre Luis Rendall
Obrigado, Sérgio Figueira e músicos por acreditarem no que já muitos nem sequer se lembram… é a vossa missão e nós agradecemos…

Sêrena – Sérgio Figueira
Tradição, experimentação e identidade numa linguagem própria, onde Sérgio Figueira cruza Cabo Verde com o mundo em equilíbrio raro.
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Paulo Lobo Linhares
3 min leitura
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