António Nunes: a Morna, o Baile… e os "Poemas de Longe"
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António Nunes: a Morna, o Baile… e os "Poemas de Longe"

Dois poemas, duas cenas, uma só música: António Nunes retratou a morna com a precisão de quem a sentiu por dentro — e nuubai recorda esse legado que a UNESCO reconheceu ao mundo.

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Paulo Lobo Linhares

2 min leitura

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[ A morna cabo-verdiana celebra-se hoje, 3 de dezembro, dias antes do aniversário do poeta António Nunes (9 de dezembro) e da sua proclamação pela UNESCO como Património da Humanidade (11 de dezembro). Nunes desenhou a morna com a mais bela poesia, oferecendo ao mundo a nossa música que voou das ilhas para o planeta. A Nuubai homenageia este legado com um texto de Paulo Lobo Linhares sobre o poeta e a nossa morna. ]

António Nunes faria no passado dia 9 de Dezembro (de 2018) 101 anos. Voltei a pegar no livro "Poemas de Longe", desta feita na sua primeira edição, que me foi emprestado pela Dr.ª Helena Lobo.

Sempre achei que António Nunes descreve com enorme precisão, quase que cinematograficamente, os lugares e os momentos que retrata nos seus poemas.

Voltando ao livro, deparei-me com uma situação curiosa…desconheço se foi feito de forma propositada ou não, por parte do autor…mas é facto que no livro as páginas 10 e 11 trazem dois poemas que…musicalmente…se complementam: "Morna" e "Dança".

Tão deleitado com a capacidade do poeta de descrever os músicos…os instrumentos, os corpos que juntos dançam e até o cheiro do lugar onde se toca a morna, nestas duas cenas, que não resisti em aqui publicar os dois poemas. Sequência. …e como a música e a dança podem ser tão bem descritas/ouvidas/dançadas… Para ler e imaginar com violinos e violões, e com a dança dos corpos entrelaçados…

Morna

As mesmas casais… as mesmas ruas…

O mesmo largo…

Só os rostos dos homens é que não são os mesmos

e, ébrios, os braços pendem, os homens tombam…

Som de violino escapando-se da casa térrea

Cheiro a petróleo e a fumo

Quêréna treme os dedos sobre as cordas,

Olhos vidrados berram por mais grog!

Titina sente-se frágil sobre os braços de Armando.

A Morna traz ao corpo a lassidão e o sonho,

Como a lua pondo sombras em coisas impossíveis

Baile

Nézinho faz a postura,

o arco desliza nas cordas

e o homem do violão

marca o compasso.

Pares se enlaçam.

E a Morna cai

cálida e lenta

como a noite lá fora…

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 891 de 24 de Dezembro de 2018.

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