Cremilda Medina: Singles como Arte, Tradição como Bússola
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Cremilda Medina: Singles como Arte, Tradição como Bússola

Cremilda Medina não lança singles — lança obras. Uma crónica sobre uma artista que trabalha a tradição com método, independência e uma rara integridade musical.

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Paulo Lobo Linhares

3 min leitura

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Confesso que uma das vantagens do desmanchar dos discos enquanto obra completa foi o desaparecimento dos singles enquanto ferramenta meramente publicitária, passando estes a funcionar quase como um avanço da obra — por partes. Isso levou, por outro lado, ao nascimento do EP que, convenhamos..., é claramente um formato físico menor, de rapidez...muitas vezes usado apenas para "despachar" o lançamento de um trabalho.

Na nossa música, há um nome que se destaca no trabalhar dos singles. Cremilda Medina.

Cremilda sabe trabalhar os singles como verdadeira obra discográfica. Quando os lança, fá-lo de forma preparada e produzida com um intuito mais artístico do que comercial. Começo pela maneira como anuncia cada lançamento: cuidada, pensada, quase diria respeitando os "mandamentos" do lançamento discográfico. Responde exatamente ao que um trabalho musical — e não comercial — exige.

Agrada-me ainda todo o processo alternativo e independente com que trabalha o produto. É certo que isso não é sempre possível para todos, porém, quando o é, normalmente é porque o disco traz qualidade impregnada. Gosto do patamar onde Cremilda se situa: não depende de escolhas de patrocinadores que, confesso, muitas vezes se regem por uma cegueira que só se dissipa quando algo é "(a)provado" pelas massas — na sua maioria despidas de julgamento próprio. Na verdade, cá pelas ilhas, a nossa paciência para ouvir música e refletir sobre ela é cada vez menor. Medonhamente menor. E o pior é que os patrocinadores também por vezes seguem o caminho do "vou patrocinar porque tem mais audiências...." ...e se o injetar de mais risco e pedagogia nos patrocínios fosse realidade....?

Cremilda não precisa de ser ouvida: ela dá-se a ouvir, através de um produto feito à medida musical.

Agrada-me também a capacidade que Cremilda e a sua equipa têm de ir buscar músicas esquecidas, porém belíssimas, sempre de compositores-mestres e do mais puro tradicional — tradição essa que se reflete na instrumentação, sempre bem escolhida. Toda esta independência de produção, aliada à paixão da cantora pela tradição, torna Cremilda um caso cada vez mais raro na nossa música.

Ah, e assim constrói palcos e casas cheias, sem necessidade de aprovação mediática de ocos saberes. Sim...é possível.

Para abrir o ano, Cremilda Medina trouxe-nos B. Leza e Amizade: tradição em mestria e palavra que se liga perfeitamente a um princípio de ano. Numa morna lindíssima — estilo que Cremilda assume como o seu porto de abrigo — a cantora parece viver um momento ainda mais interessante, tanto musicalmente como, sobretudo, em termos vocais. As subidas sabem a maturidade vocal, o que se reflete no todo da voz. A instrumentação, preciosamente, não foge do tradicional: elaborada, tradutora do que é nosso e que pode ser mundo. Porém, creio que o enorme Palinh poderia arriscar um pouco mais, (na diferença dos toques anteriores) sem, obviamente, sair desse universo tradicional.

Num teledisco interessante, fica a pergunta: será o drone sempre necessário nos nossos telediscos? Mesmo reconhecendo que foi bem usado na planície vasta — o que me fez lembrar o teledisco de Soren Araújo lançado há alguns meses. As planícies de Cabo Verde são sempre bonitas.

Um senão à descrição da letra no vídeo: por que não usar a nossa língua escrita de forma correta? Fica a sugestão.

Parabéns, Cremilda, por este aperitivo que traz amizade, raio de sol e tradição na sua mais alta expressão. Obrigado pelo teu comprometimento com este género musical. Que este aperitivo seja já uma fatia do disco vindouro.

Amizade.

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