A Morna foi (e será) desde o seu aparecimento, fonte de inspiração
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A Morna foi (e será) desde o seu aparecimento, fonte de inspiração

Vasco Martins viajou pelo imaginário da morna e trouxe de volta uma obra orquestral que é, nas suas próprias palavras, um testemunho à sua grandeza. Um disco que chegou antes do reconhecimento da UNESCO — e que o merecia.

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Paulo Lobo Linhares

2 min leitura

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[ Encontrei este artigo escrito há alguns anos no Expresso das Ilhas, onde se cruzam Vasco Martins e a Morna, que celebra este mês o seu dia. Sobre Vasco, mantenho uma admiração profunda que nasceu há muitos anos, quando produzi um dos meus primeiros concertos no inesquecível Fesquintal de Jazz. Este disco em particular marcou-me de forma especial — foi o único trabalho de Vasco Martins que distribui profissionalmente, e guardo-o, assim como guardo o próprio Vasco, com grande carinho. Deixo aqui o texto de 2016, que continua tão atual e inspirador como no dia em que foi escrito. ]

Vasco Martins inspira-se neste género musical para compor os temas do seu último trabalho – "Viagens no imaginário da Morna". Numa altura em que a Morna prepara a candidatura à classificação como Património Imaterial da Humanidade, pela UNESCO, nada poderia ser mais propício, que o aparecer desta obra, que quase celebra tal acontecimento.

Ao longo dos temas propostos, Martins faz presente, o que para ele são as várias influências da Morna, nomeadamente o Fado, ou a Modinha Luso-Brasileira.

Mergulhemos então nos esquiços destas sonoridades e …sigamos viagem, conforme propõe Vasco:

Começamos no "Canto das ilhas". Seguindo, ao passar por "4 notas na cidade", ouvimos sonoridades conhecidas. Martins baseia-se no refrão sanvicentino das vendedeiras de peixe: "oli cavala fresk" que de forma subtilmente mágica, transporta-o para a Morna…ou para a obra sinfónica baseada na Morna…conforme quisermos.

Continuando, um título interessante - "Como uma moeda de prata". Esta composição é dedicada a António Aurélio Gonçalves, que finaliza fazendo referência à Mazurca, ritmo querido de Nhô Roque. Para além da belíssima estória do título do tema (autoria do escritor), musicalmente é de uma beleza estonteante.

Antes de chegarmos às "Noites Mágicas", inspirada em "Noite de Mindelo" de B.Leza, ouvimos ao longe a guitarra portuguesa de Ricardo Silva fazendo-nos lembrar "Um deserto ao Sul". A viagem acaba com o tema "Airoso", onde sentimos a presença subtil de um hino. Segundo o autor, é uma homenagem a Eugénio Tavares, que compôs alguns.

Conduzida pela Orquestra Clássica do Centro sob a batuta do Maestro José Eduardo Gomes, a viagem recomenda-se.

Conforme referiu Vasco Martins: "o meu testemunho como compositor à grandeza da Morna, a nível artístico, humano ou espiritual". Partilha pura!

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 762 de 06 de Julho de 2016.

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